27.10.20

Pessoas que não usam máscaras tendem a ser sociopatas, diz estudo



Dar importância ou minimizar as medidas de contenção do corona vírus e ao perigo da COVID-19 está ligado a características psicológicas e comportamentais de empatia e de antissociabilidade, respectivamente. Pessoas empáticas tendem a uma maior preocupação em usar máscara, higienizar as mãos e adotar medidas de isolamento e distanciamento social para evitar a transmissão da doença. Já os antissociais minimizam a importância dessas ações e até mesmo a gravidade da doença.

As diferenças no nível de engajamento com essas medidas são resultado de um estudo realizado pelo professor Fabiano Koich Miguel, do Departamento de Psicologia e Psicanálise do Centro de Ciências Biológicas (CCB), e o professor Lucas de Francisco Carvalho, da Universidade São Francisco (USF), de Campinas (SP). O trabalho ainda conta com a participação de Gisele Magarotto Machado, orientanda em nível de mestrado do professor Lucas de Carvalho, e Giselle Pianowski, que realizou pós-doutorado na USF e participa de várias pesquisas do grupo.

Questionários – Fabiano Koich Miguel explica que foram ouvidos 1.578 pessoas entre 18 e 73 anos de idade. Foram usados dois questionários para avaliar os construtos psicológicos: um para avaliar a personalidade antissocial (PID-5) e outro para avaliar empatia (ACME). “Ambos são questionários utilizados internacionalmente em pesquisas com essas características psicológicas, e já foram adaptados e estudados também no Brasil”, explica o professor. “O convite para a pesquisa foi feito via mídias sociais, predominantemente Facebook.”

Professor Fabiano Koich Miguel (FOTO: Arquivo pessoal)
O professor explica que o PID-5 avalia frequência de comportamentos antagonistas, sensação de estar desconectado de outras pessoas, por exemplo. Já o ACME avalia a capacidade de se colocar no lugar de outras pessoas, entender motivos e sentimentos. Um terceiro questionário foi elaborado pelos pesquisadores, especificamente para a pesquisa, abordando a experiência do entrevistado com a pandemia, como se considerava importante usar máscara, praticava distanciamento social, entre outros itens. Juntos, os três instrumentos de coleta de dados somam 122 perguntas.

Os resultados do estudo foram publicados, em língua inglesa, na revista Personality and Individual Differences – volume 168, nº 1- janeiro de 2021 – publicação da base internacional Elsevier – confira: Compliance with containment measures to the COVID-19 pandemic over time: Do antisocial traits matter? . O professor Fabiano Koich Miguel, do CCB, atendeu a Agência UEL de Notícias e concedeu a seguinte entrevista:

Quais as diferenças mais significativas entre os grupos antissocial e empatia, objetos da pesquisa?
As diferenças mais significativas foram no nível de engajamento com as medidas de contenção. O grupo empatia respondeu o questionário mostrando maior preocupação em usar máscara, higienizar sempre as mãos, adotar isolamento social para evitar contágio (tanto contrair a doença quanto transmitir para outras pessoas). Já o grupo antissocial mostrou menor preocupação com essas medidas, minimizando sua importância ou minimizando a doença. Além disso, também encontramos algo não específico dos grupos, mas da amostra em geral. As coletas de dados aconteceram ao longo de 15 semanas (desde março, no início da quarentena, até junho). Durante esse período, o nível de engajamento nas medidas de contenção (tanto do grupo empatia quanto do grupo antissocial) tendeu a se manter relativamente estável. Ou seja, as pessoas tenderam a mudar pouco seus hábitos. Dito de outra maneira, as pessoas não começaram a se engajar mais (nem menos) na quarentena e nas medidas de contenção, ao longo do tempo.

É possível estabelecer as causas para alguém que tenha níveis baixos de empatia e alto índice de insensibilidade? Em outras palavras, o que torna uma pessoa assim?
Existem causas diversas para a formação da personalidade. Há tanto influências genéticas, como influências culturais e influências das experiências individuais que todo mundo passa ao longo da vida. Seria difícil apontar uma causa única que valesse para todo mundo, mas há experiências que são mais comuns a esses quadros. Por exemplo, pessoas com mais empatia tendem a ter uma vivência social mais prazerosa, recompensadora, preocupando-se mais com o bem-estar dos outros. Já personalidade antissocial tende a ter uma vivência social negativa, com interações mais voltadas para benefício própria em vez do bem-estar comum.

Se a falta de empatia é um obstáculo para as medidas de isolamento social e esse é um problema grave para conter a doença, qual é a solução?
Boa pergunta, e provavelmente não seria algo fácil de se alcançar. Mas acreditamos que poderia haver maior investimento (por meio de políticas públicas) no senso de comunidade. Talvez mais divulgações apresentando a importância das medidas de contenção para o bem de todos, e não apenas no nível individual. Apresentar os benefícios que poderão ser alcançados se todos contribuírem. Estimular o senso de união, que anda tão em falta no Brasil ultimamente.

Nenhum comentário:

Postar um comentário