23.10.20

Quanto vale um corpo bonito?

Nessa semana saiu uma triste notícia na mídia. Uma mulher de 34 anos do Rio de Janeiro morreu devido a um procedimento estético feito na clandestinidade.  Ela era nutricionista, já tinha um corpo escultural, mas infelizmente acabou vítima da busca incansável pelo corpo perfeito.

Fiz uma busca no Google hoje com a seguinte frase: "Mulher morre após procedimento estético". Sabe quantas notícias diferentes apareceram só na primeira página? Foram 5 notícias de mortes diferentes do caso do Rio de Janeiro, somente com o mesmo título ou semelhante listados pelo Google em 9 resultados que apareceram na primeira página. Isso significa que esse não é um fenômeno isolado dessa sociedade moderna, pós redes sociais. Já está ficando comum e corriqueiro mulheres morrerem em procedimentos estéticos. E isso é grave.

Os noticiários sempre falam em punição a quem fez o procedimento sem qualificação, mas mulheres não morrem somente na mão de profissionais não qualificados, mas morrem também na mão dos qualificados e nesse caso ninguém é punido, já que eles tem respaldo em protocolos aceitos e aprovados, nesses casos tratam como uma fatalidade. Mas isso está longe de ser uma fatalidade. Por trás desse fenômeno há uma psique doente. 

Hoje quero falar sobre a Dismorfia Corporal ou Dismorfobia. Um distúrbio que acarreta em média 2% da população brasileira, segundo a Revista Saúde. A Dismorfia Corporal é um distúrbio ligado a autoimagem e autoestima que pode ter uma ampla gama de efeitos psicológicos e físicos, nas pessoas com esse problema. Para o Dr. Aric Sigman, um biólogo britânico, o fato de algumas mulheres admirarem padrões de beleza com baixo peso e se sentirem insatisfeitas com o seu corpo terá uma mudança imediata na química do cérebro diminuindo a autoestima e podendo aumentar a auto aversão. Os investigadores nesta área notam que as pessoas com uma imagem corporal baixa vão tentar alterar o seu corpo de alguma forma, por dieta ou cirurgia plástica.

Para os portadores da doença, o desejo de mudança extrema com a aparência é consequência da crença em defeitos do corpo, por isso a busca constante por uma aparência perfeita, que muitas vezes chega a ser inexistente. Quando esse comportamento torna-se obsessivo, ele acaba se transformando em doenças como bulimia, anorexia e dismorfobia, ainda desconhecida por muitos, mas que preocupa a comunidade científica. Comum em adolescentes, a patologia precisa ser tratada com acompanhamento médico e psicológico.

A dismorfobia inclui vários problemas ou falhas imaginárias na aparência física que não são observáveis por terceiros ou aparecem de forma leve para os outros. Assim, ocorre nessa pessoa uma distorção da autoimagem, que apresenta, em alguns casos, sintomas de comportamentos repetitivos, como ficar se observando de forma incansável na frente do espelho, arrumar-se excessivamente, beliscar a pele, comparar a própria aparência com a de outra pessoa.

Outra característica desse transtorno são sintomas cognitivos, como a percepção de defeitos ou falhas na aparência física vindas do imaginário de cada um. A média de idade da incidência da dismorfobia é de 16 e 17 anos. Porém, de acordo com a psicanalista e professora da Universidade Estadual do Ceará (UECE) Camila Guimarães, a fase mais comum de início da doença tem ocorrido aos 12 ou 13 anos.

A profissional explica que as vítimas desse transtorno exigem de si a busca pela beleza de todas as formas, tendo preocupação com o que cada um pensa da sua imagem ou, até mesmo, fazendo comparações a pessoas consideradas "modelos" de beleza. Ela argumenta que este é o momento de procurar um profissional para uma análise.

"Os indivíduos com transtorno dismórfico são preocupados com um ou mais defeitos e falhas percebidas em sua aparência física que muitas vezes nem existem. Acreditam que são feios, nada atrativos, anormais, deformados ou que estão fora dos padrões de beleza que acreditam existir, buscando uma perfeição que nunca irão alcançar. Deve-se salientar que, no contexto contemporâneo de uma sociedade narcisista como essa em que estamos, cada vez mais se busca uma sensibilidade corporal da perfeição onde nada falta ou falha. E essas [pessoas] precisam procurar ajuda o mais rápido possível", explica a psicanalista.


Orientações para aceitar e lidar com seu corpo

1 - Liberte-se do padrão do corpo ideal
    É a hora de se libertar das neuroses em relação ao seu tipo físico e parar de se comparar com padrões externos e de se sentir mal por ser como é. Não se engane todos tem defeitos, inclusive os corpos e vidas perfeitas das capas de revista e do Instagram.

2 - Não coloque a felicidade na sua aparência
    Você pode fazer o que deseja, desde que se disponha a isso. É justamente seu corpo lhe permite isso, afinal é através dele que você se relaciona com o mundo e com todos ao seu redor. Até por que seu corpo não define quem você é, é apenas um fragmento, e você é um todo composto de todas as suas qualidades, capacidades e valores!

3 - Desenvolva autoconhecimento

    Descubra seus desejos, suas vontades e seus limites, descubra o que te faz bem e o que não faz. Saiba discernir se algumas mudanças estéticas são desejos pessoais ou para agradar outras pessoas.

4 - Aprenda a gostar do seu corpo
    Perceba e admire todas as coisas positivas e lindas sobre você. Ao invés de focar nas críticas e buscar defeitos, dê ênfase as suas qualidades e valorize as partes que mais gosta em si mesmo.
    Não tenha vergonha de si mesmo, interaja com as outras pessoas, sinta-se linda, ame-se. Seu corpo é um retrato da sua história, de tudo aquilo que você passou. Ele conta sua história ao mundo.

5 - Não se cobre demasiado
    Não se sinta mal por não estar feliz com o seu corpo ou agir como isso não lhe afetasse.  Por que afeta, as vezes magoa e até pode deixar triste. Mas a auto aceitação não é para que você comece a se cobrar para que isso aconteça, a questão é justamente se livrar das cobranças. Até por que, ela não acontece de um dia para o outro.

6 - Se for preciso mudar, mude

    Você pode se aceitar e mesmo assim ter algum projeto de mudança. Se você acha que algo precisa ser melhorado e que isso lhe fará bem e mais feliz, corra atrás. Veja o que pode ser feito, planeje, estabeleça metas e coloque em prática, mas sem prejudicar sua saúde física e mental.

7 - Cuide-se

    Mais importante que um corpo perfeito é um corpo saudável e uma mente saudável. A busca pelo corpo ideal pode estar além de questões estéticas, pode envolver questões de saúde seja física ou psicológica. Não esqueça que existem profissionais que podem te ajudar.
Se alimente bem, pratique atividade física, faça terapia e jamais coloque sua saúde em risco para conquistar determinada aparência. Tenha cuidado consigo mesma, se coloque em 1º lugar!

8 - Respeite e aprecie a autenticidade individual
    Muitas vezes nos percebemos criticando outra pessoas que assuma sua própria individualidade e isso pode nos fazer pensar o quanto nos cobramos a nós próprias. Aquele clássico argumento: “trate o outro da mesma forma que você gostaria de ser tratado”. Pense antes de comentar algo sobre a aparência de outra pessoa, o comentário é mesmo necessário? Como você se sentiria ao ouvir a mesma coisa?
    Aceite e respeite outros e suas individualidades. Essa atitude irá afetar positivamente as pessoas ao seu redor e consequentemente você também. Exerça a empatia.

9 - Busque o equilíbrio na vida

    Corpo e mente devem estar em harmonia. Encontre um equilíbrio entre o que você deseja e o que é necessário.
    Aproveite a vida, faça coisas que você gosta, descubra atividades que te motivem.  Procure ter bons relacionamentos com a família e com os amigos.
 
    E por fim, meu conselho pessoal, saia das redes sociais e se não for possível por algum motivo, evite seguir pessoas que só postam fotos de seus corpos, rostos e que ostentem uma vida de luxo para evitar se martirizar com o que não tem e evitar comparações que só te trarão infelicidade e frustração.


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