5.7.19

Resenha do livro: As aventuras de Karl Marx contra o Barão de Müchhausen

Resenha do livro: LOWY, Michael. As aventuras de Karl Marx contra o Barão de Müchhausen: marxismo e positivismo na sociologia do conhecimento. 5ª ed. São Paulo, Ed. Busca Vida, 1987

A obra de Michael Lowy apresenta um estudo sistemático de uma sociologia crítica do conhecimento, com o objetivo de examinar os dilemas, as contradições, os limites, assim como, as significativas contribuições das perspectivas metodológicas voltadas para a construção das ciências humanas. Na primeira parte, Lowy faz um estudo essencial de diferentes autores que trabalham com orientações teóricas diversas e buscam uma compreensão relevante do processo de conhecimento das ciências humanas e de defesa de interesses de classe. Nesta linha, destaca autores como Condorcet, Saint-Simon, Augusto Comte, Emile Durkheim, Max Weber e Karl Popper.

Para finalizar a primeira parte do seu livro, Lowy destaca as principais considerações dos autores e enfatiza que a objetividade não poderia ser o resultado de qualquer “boa vontade” individual do homem da ciência, de sua pretensa capacidade de se liberar de seus próprios “preconceitos”. Não distingue as ciências sociais das ciências naturais. A ciência deve progredir com a liberdade de crítica, debate, confronto entre escolas diversas e entre pesquisadores, tanto em visão social comum do mundo, como entre cientistas presos à opções axiológicas e político-sociais contraditórias.

Num segundo momento de sua obra, o autor analisa algumas características das diversas linhas de pensamento adotadas em relação à questão da ideologia por Karl Popper, por Max Weber, por Karl Mannhein e pelos representantes do Stalinismo. 

É necessário debater a relação ideologia e conhecimento nas ciências sociais, sem se limitar ao estudo das correntes do positivismo e marxismo. Existe uma terceira corrente que, segundo Lowy, dominou o pensamento alemão durante um século e meio e do qual derivou a disciplina “sociologia do conhecimento”, referindo-se ao Historicismo.

Numa postura conservadora, o historicismo surgiu como uma reação à filosofia do iluminismo, à Revolução Francesa e, sobretudo, à ocupação napoleônica, no período que compreende o fim do século XVIII e inicio de XX.

Ele se manifesta de diversas formas no campo cultural, correspondendo ao romantismo literário e político de Schlegel, Schleiermacher, Görres e Adam Müller- à escola historicista do direito com Savigny e, ainda, à historiografia moderna de Ranke, Droysen e Sybel.

Logo, “sua base social é composta do conjunto das camadas vinculadas a um modo de vida pré-capitalista e visceralmente hostis à sociedade burguesa em gestação: a nobreza, os junkers, a burocracia, o clero(católico e protestante), a pequena burguesia urbana e rural, a intelligentsia tradicional (professores, juristas, teólogos, escritores, artistas)”. 

Por fim, Lowy identifica as diferentes versões que lhe dão Marx e Lênin, bem como nos esforços que marcam as reflexões de Lukács, Gramsci, Marcuse, Adorno e Horkheimer, entre outros.

A corrente marxista foi a pioneira do problema de condicionamento histórico e social do pensamento e buscou desmascarar as ideologias de classe através do discurso neutro e objetivo dos economistas e de outros cientistas sociais.

Enquanto visão do mundo, o Marxismo é uma utopia revolucionária, no sentido de aspirar a um estado de coisas ainda inexistente. Porém, nos Estados pós capitalistas ele pode assumir um caráter ideológico: Estalinismo.

De acordo com Lowy,“O poder da ideologia positivista era tal, no fim do Século XIX e início do século XX, que acabou por penetrar também, e muito profundamente, na doutrina do movimento operário socialista à época da Segunda Internacional.” Apareceram neste período concepções que visavam fazer do Marxismo uma teoria puramente científica, que escaparia às determinações sociais e às ideologias. Destacam-se neste sentido as teorias de Bernstein, Enrico Ferri, Kautsky, entre outros. Neste período de comunhão de idéias adversas, somente as correntes de esquerda revolucionária (e em particular Rosa Luxemburgo) escapariam da influência positivista.

A obra de Lowy, confronta as diferentes concepções assumidas pelos autores em face dos fenômenos ideológicos e reconhece a necessidade histórica de diversidade de pontos de vista. Enfatiza que, determinadas abordagens são mais abrangentes do que outras e portanto são mais favoráveis à conquista de um conhecimento mais completo, mais verdadeiro. Do ponto de vista de classe do proletariado, é possível enxergar mais longe do que do ângulo, Lowy ao comparar o cientista social ao pintor de uma paisagem explicita e deslumbra uma compreensão de que a pintura depende em primeiro lugar do que o artista pode ver, isto é, do observatório de onde ele se acha situado. O observatório mais alto é o ponto de vista do proletariado. Os limites estruturais do horizonte não dependem da boa ou má vontade do observador, mas da altura e da posição que ele se encontra. O mirante não oferece senão a possibilidade objetiva de uma visão determinada da paisagem. E a paisagem como painel não depende somente do observatório mas também do próprio pintor, de sua forma de olhar e de sua arte de pintar.



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