17.7.19

As Redes Sociais Podem Matar: Caso Alinne Araújo

Alinne Araújo, influencer conhecida como @sejjesincera tirou a própria vida na última segunda-feira dia 15, jogando-se do nono andar do prédio onde residia no Recreio dos Bandeirantes, no Rio de Janeiro. Após uma série de eventos traumatizantes, a blogueira que usava suas redes sociais para alertar sobre depressão e ansiedade, perdeu a batalha traiçoeira contra a doença frente à um mundo repleto de desamor e dedos acusatórios.

Alinne se casaria com Orlando, porém, no dia anterior, foi informada do término da relação pelo mesmo via WhatsApp. Ainda que consternada, a blogueira e os familiares optaram por celebrar a vida e, num gesto louvável, Alinne causou-se consigo mesma.

Alinne de fato prosseguiu com a cerimônia e fez uma nova postagem com vídeos e fotos que viralizou, atraindo pessoas admiradas com a decisão, bem como uma onda de linchamento virtual, acusando-a de tudo o que você possa imaginar. Os comentários a julgavam por se promover com a situação e fazer drama por biscoitos - os famigerados likes - e houve até quem justificasse a debandada do noivo por suas características físicas, psíquicas e tendências suicidas. No dia seguinte, o desfecho fatal levantou diversas questões. Dentre elas, a crueldade patológica dos usuários das redes, a falta de responsabilidade afetiva de Orlando e, claro, a própria depressão, doença que vem se alastrando ano após ano.

Atualmente, o Brasil é considerado o país mais ansioso e estressado da América Latina. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), nos últimos dez anos o número de pessoas com depressão aumentou 18,4%, isso corresponde a 322 milhões de indivíduos, ou 4,4% da população da Terra. No Brasil, 5,8% dos habitantes – a maior taxa do continente latino-americano – sofrem com o problema.

Quanto maior o estresse proveniente do ambiente, maior será a chance do desenvolvimento de quadros depressivos. O ambiente é um dos mais importantes geradores de estresse em nossa vida cotidiana. As mídias sociais fazem, hoje, parte de nossa rotina e, portanto, têm sido identificadas com geradores de ansiedade e depressão. Elas passaram a ser parte do nosso “novo” contexto. A doença caracteriza-se por uma alteração na quantidade de neurotransmissores no cérebro. Além disso, há alguns fatores que influenciam o surgimento da doença tais como: fatores genéticos, gênero (mulheres são mais suscetíveis devido às alterações hormonais e pressões sociais), eventos estressantes, doenças crônicas, situações traumáticas (acidentes, sequestros, violência, abuso sexual, etc), abuso de álcool, drogas e também a idade (idosos têm maior prevalência).

Em meio ao afã dos acontecimentos, existem duas análises primordiais que precisamos fazer enquanto sociedade. A primeira delas é sobre como o coletivo covardemente atua como um rolo compressor da dignidade humana. Escondendo-se atrás das telas, a violência humana sente-se muito à vontade na dinâmica das relações em rede e seu suposto anonimato em meio à multidão. O resultado são interações desumanas e inconsequentes, como se o que é proferido na virtualidade não tivesse qualquer consequência no plano concreto de cada vida do outro lado da tela.

A segunda, um pouco mais delicada e polêmica, é sobre a autorresponsabilidade de nossa felicidade. A busca desenfreada por validação e acolhimento por meio das mídias sociais nos deixa expostos e mais suscetíveis aos requintes de crueldade e psicopatia de uma massa descontrolada e irracional. Esse eixo narrativo individual não deveria ser delegado tão facilmente a terceiros. No entanto, estamos reféns do nosso próprio tempo e manter a autonomia e a sanidade tem sido um esforço hercúleo diante do mindset dos números.

Ainda que o show de horror do linchamento virtual e a frieza do noivo ao término da relação exponham problemáticas urgentes, a decisão de tirar a própria vida foi dela. Chegamos em uma encruzilhada onde o que é de trato coletivo se mistura com o indivíduo e vice-versa.

Não há responsabilidade direta dos haters ou do noivo quanto ao trágico desfecho deste processo da Alinne. Um suicídio pode acontecer por razões impulsivas ou com o agravamento de um quadro depressivo. Se considerarmos que a responsabilidade afetiva é o mesmo que reciprocidade amorosa, temos de encarar que as pessoas não serão capazes de realizar todos os nossos desejos e, portanto, podemos nos decepcionar e teremos de lidar com o fato de que a realidade das relações é diferente do que costumamos fantasiar. O importante é assumir a responsabilidade e procurar ser honesto/a quanto aos seus sentimentos, evitando assim possíveis danos na relação com o outro/a.

O empresário Orlando Costa - o noivo - fez uma breve postagem quebrando o silêncio.
“Eu tô tentando escrever, assim que tiver forças eu explico melhor, só posso adiantar que eu não existo mais, estou acabado”, escreveu ele. A postagem, curtida mais de 25 mil vezes até esta manhã, recebeu milhares de comentários, entre críticas e mensagens de apoio. Momentos depois, ele tornou o perfil privado.

Orlando, fez bem em se proteger nesse momento, pois o linchamento é um monstro insaciável. Troca de alvo e segue engolindo vidas mas não muda sua missão: achar culpados para as doenças que a própria sociedade alimenta.

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*Abaixo leia alguns detalhes da vida de Aline e seus problemas psicológicos e familiares que podem dar pistas sobre sua doença e dinâmica do ocorrido.

A mãe de Alinne Araújo, Elizabete, contou que a depressão acompanhava sua filha há muito tempo e que críticas nas redes sociais agravaram os sintomas da doença.

"Ela queria muito ajudar as pessoas. Mesmo tendo os problemas, ela só quis ajudar. Ela dizia que era a missão dela... No dia que ela estava bem, ela falava. Quando não estava, nem visualizava", comentou Elizabete. Alinne usava as redes sociais para compartilhara sua luta contra a depressão e a ansiedade.

Diagnóstico de Depressão e Ansiedade
A tia de Alinne, Saionara, falou sobre a doença da influenciadora: "Ela se tratava com psicólogo e psiquiatra, tinha todo um amparo para a saúde mental. Ela sempre sofreu de depressão. No início da adolescência, ela chegou a tomar remédio, a gente levava para o hospital, já fez lavagem... tiveram outros episódios."

Fim do noivado

"Eles moravam juntos há 9 meses. Ele saiu para pegar o terno, a aliança e pagar a filmagem do casamento. Aí ela me ligou falando: 'Tia, o Orlando sumiu, não pagou a filmagem e o cara da filmagem tá me ligando. O que eu faço?'. Falei: 'Minha filha, calma! Despedida de solteiro. Os amigos levaram ele para fazer uma farra. Não tá atendendo o telefone por conta disso'. Oito e pouca da noite, ele mandou a mensagem dizendo que não estava pronto para casar. No domingo, fomos à delegacia para dar o sumiço dele, porque ninguém some às vésperas do casamento. Ele que pagou todo o casamento. Ela não trabalhava, era estudante", detalhou a tia.

O sumiço do ex-noivo
"Quando ela começou a ligar e ele não atendia, ligou para os pais dele, pegou o carro e foi atrás. Chegou à casa da mãe dele e a mãe falou que se ela não acreditasse neles, que poderia revistar a casa. Todo mundo rindo, muito feliz. Ela veio embora e, na metade do caminho, recebeu a mensagem dele terminando. Ela abriu a porta do carro e se jogou na frente de um carro", contou Elizabete.

Como a influencer já mantinha um quadro constante de tentativas de suicídio, sua tia revelou que no momento em que Alinne Araujo ficou sabendo que seu noivo abriria mão do casamento tentou acabar com sua vida, “ela abriu a porta do carro e se jogou na frente de um [outro] carro”, desabafa.

Impacto dos comentários negativos nas redes sociais
Antes do casamento, Alinne tinha 26 mil seguidores. Após o assunto viralizar nas redes sociais, o perfil atingiu mais de 400 mil usuários. A postagem sobre a cerimônia dividiu opiniões e a influenciadora foi bombardeada com comentários negativos sobre a sua escolha de casar sozinha.

"Ela não estava pronta para o 'boom' que teve... Estava costumada com o apoio, porque, os 26 mil seguidores que ela tinha até o casamento, tinham o mesmo propósito. Eram pessoas depressivas, que a seguiam por ter a mesma doença. Ela não estava pronta para a quantidade de críticas. Teve gente que a acusou dizendo que ela tinha traído o noivo. Outros dizendo que ela só queria aparecer, que o noivo devia estar escondido e que apareceria depois das filmagens. Foi muita coisa, foi uma avalanche"
, comentou Saionara.

"Muita gente falou que era teatro, porque ela fazia teatro. Diziam que ela não tinha depressão, que só queria chamar atenção. As pessoas só acreditam que a pessoa tem depressão quando ela se mata",
ressaltou.

O casamento
"Quando ela aceitou casar com ela mesma, eu sabia que o resultado viria depois. Tanto que nem fui trabalhar, fiquei de olho nela depois do casamento. Eu deitada de um lado e ela do outro. Tomei remédio para descansar, porque estava duas noites sem dormir. Ela esperou o momento que eu cochilei, foi para o quarto e se jogou da janela", relatou a mãe de Alinne.

Morte anunciada
Elizabete contou que Alinne chegou a anunciar que tiraria sua própria vida, porque não tinha mais motivos para viver:

"Ela falou comigo que iria fazer isso, só que eu não levei fé, não acreditei... Ela dizia: 'Você tá sabendo, mãe, meu mundo acabou'."

Fontes: Encontro com Fátima Bernardes e Revista Marie Claire

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