25.6.19

Totem e Tabu Obra visionária ou obra superada?


Com essa obra fundamental, que merece ser mais valorizada do que foi até hoje, Freud desenvolve uma visão psicanalítica admirável da natureza humana, abrindo perspectivas mais amplas em relação ao seus trabalhos precedentes. Ele se apoia em pesquisas de etnólogos e antropólogos para estabelecer paralelos com as descobertas psicanalíticas, em particular com elementos pertencentes ao complexo de Édipo, como a proibição do assassinato do ancestral —o pai ou seu representante — e a proibição do incesto — isto é, de esposar a mulher do pai. Contudo, o complexo de Édipo não poderia nascer de novo com cada indivíduo, a cada geração. Assim, Freud sugere uma hipótese audaciosa que suscita, pesadas críticas:
segundo ele, traços ancestrais que remontam às origens influenciariam a constituição desse complexo. Freud acredita que é possível descobrir esses traços arcaicos nos sentimentos fortemente ambivalentes que todo indivíduo experimenta em relação ao próprio pai — ele não fala da mãe — e no sentimento de culpa inconsciente que recai pesadamente sobre cada um, de uma geração a outra. Para Freud, não resta nenhuma dúvida de que esse sentimento de culpa constitui o resíduo de uma falta originária cometida quando de uma refeição totêmica durante a qual os irmãos, reunidos no ódio ao seu pai, o teriam devorado para ocupar seu lugar. Desse ato canibalesco ancestral decorreria não apenas um sentimento de culpa individual, mas igualmente as diferentes fases da organização social da humanidade, desde o totemismo dos primitivos até a moral coletiva que assegura a vida em sociedade. A religião seria uma outra forma de expressão, desde a religião totêmica das origens até o cristianismo, este último fundado no pecado original cometido pelos primeiros homens contra o Deus Pai. As diversas hipóteses apresentadas poder Freud em Totem e tabu suscitaram inúmeras críticas provenientes de todos os horizontes, mas ele também levanta questões fundamentais, suscetíveis de "tirar o sono dos humanos por muito tempo", como havia pressentido. Talvez essa seja uma razão suficiente para explicar em parte o desinteresse atual por Totem e tabu.

O temor do incesto
Freud se propõe nessa obra a demonstrar algumas semelhanças entre a psicologia dos povos primitivos, tal como ensina a etnologia, e a psicologia dos neuróticos, tal como concebe a psicanálise. Seu ponto de partida o totemismo, praticado em particular pelos aborígines da Austrália, entre os quais cada tribo adota o nome de seu totem, em geral um animal como o canguru ou a ema. O totem é hereditário e seu caráter é associado a toda a linhagem envolvida. Por toda a parte, onde vigora um totem existe também uma lei, diz Freud, "(...) segundo a qual os membros de um único e mesmo totem não devem ter relações sexuais entre eles, e consequentemente não podem casar entre eles" (p. 15 [200]). A transgressão dessa proibição é sancionada com uma punição severa, aparentemente para afastar um perigo que ameaça toda a tribo. Assim, esses povos primitivos revelaram um grau particularmente elevado de temor do incesto, e Freud dá outros exemplos extraídos de trabalhos etnológicos. A esse temor da transgressão associa-se uma série de "costumes" que têm como objetivo evitar a intimidade entre os indivíduos pertencentes ao mesmo totem. O mais difundido e mais rigoroso diz respeito à evitação entre sogra e genro. De um ponto de vista psicanalítico, Freud considera que essa evitação recíproca e está fundada em uma relação "ambivalente", isto é, sobre a coexistência recíproca de sentimentos ternos e hostis, estreitamente ligados ao temor do incesto.

Segundo ele, o temor do incesto associado ao totem que encontramos nos "selvagens" está presente também na vida psíquica dos neuróticos, na qual constitui um traço infantil: "A psicanálise nos mostrou que o primeiro objeto a que se dirige a escolha sexual do menino é de natureza incestuosa, condenável, pois esse objeto é representado por sua mãe ou por sua irmã, e nos mostrou também o caminho seguido pelo menino, à medida que cresce, para escapar da atração do incesto" (p. 33 [218]). Consequentemente, as fixações ou as regressões incestuosas conscientes da libido desempenham um papel central na neurose, de modo que o desejo incestuoso em relação aos pais constitui o "complexo nuclear da neurose". A revelação pela psicanálise da importância do temor do incesto no pensamento inconsciente dos neuróticos chocou-se com a incredulidade geral, o que, para Freud, é a prova da angústia generalizada que ela desencadeia em qualquer indivíduo: "Somos obrigados a admitir que essa resistência decorre sobretudo da profunda aversão que o homem sente por seus desejos incestuosos de outrora, hoje completamente e profundamente reprimidos. Assim, não deixa de ser importante poder mostrar que os povos primitivos sentem ainda de uma maneira perigosa, aponto de se verem obrigados a se defenderem contra eles por medidas extremamente rigorosas, os desejos incestuosos destinados a se perderem um dia no inconsciente" (p. 34 [218]).

O tabu e a ambivalência de sentimentos
Freud prossegue examinando a noção de tabu, palavra polinésia cujo significado é duplo, pois ela contém, de um lado, a ideia de sagrado, de consagrado e, de outro, a de inquietante, perigoso, proibido. As proibições ligadas ao tabu não fazem parte de um sistema moral ou religioso, mas são proibições em si; o tabu nasceu primeiro do medo das forças demoníacas, e depois também se tornou demoníaco. Sua fonte é uma força de encantamento que se associa a pessoas em um estado de exceção — reis, padres, mulheres menstruadas, adolescentes, etc. —, ou a lugares, e, seja qual for, o tabu desencadeia ao mesmo tempo um sentimento de respeito e de inquietação. Na psicanálise, encontramos pessoas que se infligem tabus como os "selvagens": são os neuróticos obsessivos. Essas pessoas estão convencidas intimamente — por uma impiedosa "consciência moral" — que se transgredirem certas proibições enigmáticas, ocorrerá uma desgraça. O temor ligado à proibição não impede que se observe nos povos primitivos, do mesmo modo que nos neuróticos, um "prazer-desejo" de transgredir o tabu, e Freud acrescenta que o desejo de transgredir o proibido é altamente contagioso.

Em seguida, Freud procura estabelecer uma semelhança entre os tabus de tribos primitivas e aqueles dos neuróticos obsessivos, e a encontra na ambivalência de sentimentos. Nos primitivos, nota-se um alto grau de ambivalência nas inúmeras prescrições que acompanham os tabus. Temos exemplos na maneira de tratar os inimigos quando sua morte é acompanhada de prescrições de expiação, ou no tabu dos soberanos, em que o rei venerado pelos súditos é ao mesmo tempo enclausurado por eles em um sistema cerimonial coercitivo, sinal de ambivalência em relação ao enviado privilegiado.

A presença regular de sentimentos de ambivalência nos tabus conduz Freud a examinar mais de perto o papel que desempenham alguns mecanismos psíquicos fundamentais. Por exemplo, ele estabelece um paralelo entre o sentimento persecutório experimentado por um primitivo em relação ao seu soberano e o delírio do paranoico: ambos seriam fundados na ambivalência de sentimentos de amor e de ódio que a criança experimenta em relação ao seu pai, como ele já mostrara a propósito do complexo paterno de Schreber. No que se refere ao tabu dos mortos, Freud chama a atenção para o fato de que as acusações obsessivas que se inflige o sobrevivente após um falecimento, por se sentir culpado pela morte da pessoa amada, decorrem igualmente de uma forte ambivalência: "Encontramos a mesma hostilidade, dissimulada por trás de um amor terno, em quase todos os casos de fixação intensa do sentimento em uma pessoa determinada: é o caso clássico, O protótipo da ambivalência da afetividade humana" (p. 91 [267]). Mas, então, o que é que distingue um neurótico obsessivo de um homem primitivo? Freud responde que no neurótico obsessivo a hostilidade em relação ao morto é inconsciente, pois é a expressão de uma satisfação condenável provocada pelo falecimento; mas o mecanismo é diferente, pois no primitivo sua hostilidade é objeto de uma "projeção” no morto: "O sobrevivente se defende de nunca ter experimentado um sentimento hostil em relação ao morto querido; ele acha que é a alma do desaparecido que nutre esse sentimento que ela procurará saciar durante o período de luto" (p. 92 [268]). E Freud destaca também a "cisão" que observa nos sentimentos ambivalentes, antecipando seus trabalhos posteriores sobre a clivagem: "Aqui também as prescrições tabu têm um duplo significado, assim como os sintomas dos neuróticos: se, de um lado, essas expressam, pelas restrições que impõem, o sentimento de dor que se experimenta diante da morte de um ser amado, de outro lado deixam transparecer o que gostariam de ocultar, ou seja, a hostilidade em relação ao morto à qual atribuem agora um caráter de necessidade" (p. 92 [268]). A compreensão do tabu esclarece também a noção de "consciência moral" ou "consciência de culpa" que Freud começa a esclarecer. Ele define essa consciência moral como a percepção de um julgamento interior de condenação por desejos sentidos pelo neurótico, sentimento horripilante que não se diferencia do "mandamento de sua consciência moral" ligada ao tabu no selvagem, cuja violência faz emergir "um terrível sentimento de culpa" (p. 101 [276)). Para ele, sentimento de culpa e temor da punição fundamentam-se na ambivalência de sentimentos, tanto no neurótico quanto no primitivo; mas o que diferencia o primeiro do segundo é que o tabu não é uma neurose, mas uma formação social. Esses argumentos antecipam a noção de superego que será definida 10 anos mais tarde em 1923.

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